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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

IMPOTÊNCIA

     Aquele menino tem, provavelmente, a idade de muitos de meus alunos. Mas quem é aquele menino? Quem são seus pais? Ele os conhece? Ou simplesmente já nasceu esquecido pela vida?
  Numa manhã ensolarada de sábado, em um ônibus que habitualmente não pego, fui surpreendida por uma criança, um menino, adormecida no banco do ônibus, possivelmente entorpecida por alguma droga. Parecia perdido.
  O menino acordou perguntando se o ônibus passaria pelo Alecrim. "Já passou, mas voltará por lá", respondi eu chocada com aquela cena: Um menino sujo, descalço, drogado e sem destino certo.
  Fiquei em torpor com um peso do pensamento enquanto imaginava quem seria aquele menino, o quanto de sua infância já foi roubado, quem são seus pais, onde vivem...
 Estive atravessada por um sentimento estranho de culpa, de impotência, de dor, de pena... Senti vontade de tocá-lo, nem que fosse com uma palavra fazê-lo sentir algo além de olhares de medo e pena.
  Quando o ônibus aproximou-se do Alecrim, avisei-o que era hora de descer. Ele, "bêbado", sentou-se e mal conseguia manter os olhos abertos. Passou o 1º ponto de ônibus e eu, tocando nele, avisei que se ele quisesse descer, o próximo ponto era a última parada que o ônibus daria dentro do bairro.
  Ele pediu que pedisse parada e agradeceu. O ônibus parou e ele, cambaleando, desceu sem rumo certo, olhando para o chão, para os lados sem saber pra onde ir... Levou o meu coração junto... Uma senhora que estava ao meu lado disse-me algo, não consegui ouvi-la porque as vozes em meu pensamento gritavam. Segurei as lágrimas "engolindo o choro" com um nó seco na garganta. Fiquei assim alguns minutos e tive meu pensamento quebrado pela fala de um vendedor que chegou perguntando se eu queria picolé e elogiou meus olhos verdes.
  Segui meu caminho. Segui com a certeza de que os pais daquele menino vivem e são você e eu. Somos pais dele quando nos omitimos diante das escolhas políticas que podemos fazer e não fazemos. Quando ignoramos nosso papel social de cidadãos e nos "eximimos" da culpa e jogamos nas costas do governo toda a responsabilidade do nosso descaso político e social.
  Quantos daquele menino perdem-se todos os dias nas grandes cidades e são fruto do meu, do seu, do nosso descaso...


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